Um dia eu entrei em um blog, não sei como eu cheguei nele, mas ainda sim lembro da sensação de ler aquilo com o que me deparei na tela do meu notebook e até hoje me sinto envolvida com a profundidade das palavras ali escritas. Intitulado como por Camila Paier , esse é um blog com textos escritos por uma jovem mulher chamada Camila. Bem, minha vontade foi de compartilhar com vocês essa experiencia e aí vai um texto tirado de lá. Seria exatamente um recado de Camila? Acho que sim. Segue o texto:
"Queridos Coxinhas,
Preciso
desabafar. Confesso que não entendo, até hoje, tamanha atração: vocês nos seus
últimos modelos de calças jeans compradas no exterior, tênis casual em cor
neutra e camisa pólo, eu quase sempre com as roupas que mais tarde venho a
saber que, em suas opiniões de almofadinhas, julgam "estranhas". De
repente, em plena festa, o meu top de couro curto (que mais tarde falará algum
de vocês que me deixa "despeitada" e uma "mina bala" da
cintura pra baixo, onde o quadril é vasto) chama a atenção do seu olhar
treinado para fuzilar loiras grandonas com cabelo comprido e sapato alto. E
vocês vêm sempre com aquele papo de "facul", com um Red Label e
energético na mão, enquanto eu degusto minha cerveja, sem me importar nem por
um segundo com a barriga estufada das horas futuras. Contam causos das viagens
de Miami e Ibiza, narram as peripécias do último feriadão com os amigos todos
solteiros em alguma praia perto daqui. Eu bocejo, falo qualquer coisa como
"que bacana" e vocês se apaixonam. Não entendo.
Toda
vez que algum de vocês me busca em casa no seu carro do ano para jantar em
algum sushi caro da cidade, juro que preferiria estar comendo pastel na Cidade
Baixa se tivesse uma conversa proveitosa quanto ao último livro lido e fôssemos
a pé, afinal, moro pertinho. Monto meu look de acompanhante coxista desejando
muito apenas colocar uma sapatilha e um vestidinho mais solto, só que o perfume
masculino caríssimo carregado e o relógio enorme me amedrontam um
pouco: penso também o que pensam de vocês, com uma menina tão
"esquisita" à tiracolo. É sempre uma batalha travar qualquer
assunto que não caia no combo futebol-trabalho-estudo-futuro e sempre tem no
final a frase que considero elogio de "tenho certeza que você vai ser uma
ótima escritora" ou algo parecido.
No
carro, quase sempre escolhem aquelas músicas animadas de academia; eu cantarolo
mentalmente qualquer descoberta hipster francesa ou finjo uma surdez
momentânea, tudo pra que meu lado um pouco rude não se manifeste e me faça
trocar pra rádio que toca bossa nova. Sempre me despeço jurando que é a última
vez que saio com qualquer cara que esteja lendo a biografia do Eike Batista ou
a nova bíblia de vendas do último mês. Lá estou eu de novo entrando no meu
prédio que fica no Centro sufocada de tanto perfume bom e com a cabeça girando,
vazia, no ritmo eletrônico do som alto, imersa no mais absoluto tédio antes de
dormir. Aliás, "top", pra mim, só se for cropped (e comprado com meu
próprio dinheiro, já que papai e mamãe não me confiam o cartão de crédito,
não).
No
geral, vocês são lindos, não me entendam mal. Posso contar nos dedos as vezes
em que a química falhou - pouquíssima vezes em que, a física escultural dos
corpos de academia cinco vezes por semana compensou bem. Apenas não entendo a
estranha paixão que dura algumas noites mas não passa disso nunca, obviamente
pelas gritantes diferenças. Quero montanha, enquanto vocês desejam praia.
Prefiro qualquer meio de mato à Jurerê Internacional. Caetano, Gil, Chico ou
Elis no lugar do aclamado coxês David Guetta. Não aguento mais escutar, quando
conto que curso jornalismo, que eu poderia "ser a nova Patrícia
Poeta", não. E, francamente? Pouco me importa sobrenome ou quem foram, são
ou serão seus pais no glorioso mundo empresarial. Chega. Vocês são adoráveis,
charmosos, uns queridos: apenas preciso de alguém pra devanear sobre questões
um pouco mais profundas que a próxima balada do final de semana. Como eu disse,
não são vocês em seus pedestais de exclusivíssimos caras da alta sociedade: o
problema sou eu e minha idealização de uma vida mais simples, isso sim.
Eu,
que pego ônibus e leio enquanto o fim da viagem não chega, preciso de mais do
que apenas quem me pegue de jeito de vez em quando - que abrace minhas ideias
sem pensar somente em dinheiro, pelo amor de deus. Eu renuncio minha vocação
para Miss Coxete aqui, se é que um dia esta saiu do imaginário dos mesmos e
chegou a existir. Espero, de coração, que aquela garota que malha glúteo dez
vezes ao dia e lê 50 tons de cinza enquanto faz bronzeamento artificial e
compra na Colcci seja legal e conquiste o coração de vocês, de verdade. Elas
irão adorar os cremes Victoria Secrets, confiem em mim, mauricinhos do século
XXI. Assim como os papos sobre musculação e whey protein, as festas chiques de
Punta e novos apps imperdíveis para iPhone. Aliás, mandem um beijo pra suas
avós: elas com certeza criaram vocês com os mimos a que qualquer mãe de mãe tem
direito. E o tanquinho está ótimo, podem parar de olhar pro espelho enquanto
fazem sexo, juro. Só tirem as meias da Tommy Hilfiger, por favor - é um pouco
broxante.
Da quase nunca de
vocês e agora não mais,
Camila"
Obrigado e espero que tenham gostado, bjbj :*


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